O Orgulho do Rei – 215

Reino de Veramor nova capa

O Orgulho do Rei

A noite havia chegado silenciosamente sobre Veramor, mas dentro do Rei havia uma batalha que nenhum dos corredores do castelo conseguia esconder.

Ele estava sozinho no antigo salão de mapas, agora modernizado, diante da grande mesa onde novos projetos se acumulavam. As luzes suaves iluminavam documentos, anotações e planos para o futuro. Tudo estava organizado.

Menos ele.

O Rei sabia que precisava pedir desculpas.

Sabia também exatamente pelo quê.

As palavras da discussão ainda voltavam à sua memória. Algumas haviam sido injustas. Outras nasceram do cansaço. Algumas sequer representavam aquilo que realmente sentia.

Mas havia uma dificuldade maior.

Seu orgulho.

Ele passou a mão pelo rosto e respirou profundamente.

Durante tantos anos aprendera a resolver problemas, enfrentar desafios, proteger o Reino e tomar decisões difíceis. Estava acostumado a acreditar que reconhecer um erro poderia significar fraqueza.

Mas, naquela noite, começou a perceber que talvez fosse justamente o contrário.

Pedir desculpas não diminuiria o Rei.

Talvez o tornasse mais digno da Rainha.

Bravus entrou no salão e aproximou-se lentamente. Não trouxe sua costumeira energia. Apenas encostou a cabeça na perna do Rei.

O Rei acariciou seus pelos.

Nilo apareceu pouco depois, caminhando com sua habitual serenidade. Saltou para uma das cadeiras e ficou observando.

Luzia permaneceu próxima à porta, silenciosa.

Ícaro, do alto de seu poleiro, repetiu baixinho uma palavra que aprendera tantas vezes ouvindo os dois.

“Amor.”

O Rei ergueu os olhos.

Quase sorriu.

Parecia absurdo que um pequeno pássaro pudesse resumir em uma palavra aquilo que ele vinha complicando durante horas.

Amor.

Era por amor que precisava atravessar o próprio orgulho.

Levantou-se.

Caminhou até a porta.

Parou novamente.

A mão permaneceu sobre a maçaneta.

Uma parte dele dizia para esperar. Outra dizia que a Rainha também havia cometido seus erros. Outra lembrava que ele não deveria carregar sozinho a responsabilidade por uma discussão que pertencera aos dois.

Tudo isso era verdade.

Mas também era verdade que não precisava esperar que ela desse o primeiro passo.

O Rei finalmente entendeu que um pedido de desculpas não precisava significar assumir toda a culpa.

Podia significar apenas reconhecer a própria parte.

E isso ele estava pronto para fazer.

Encontrou a Rainha no jardim interno.

Ela estava sentada próxima às flores, com um livro fechado sobre o colo. Quando percebeu sua presença, levantou os olhos.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

O Rei sentou-se ao lado dela.

Não apresentou justificativas.

Não falou sobre o projeto.

Não explicou suas responsabilidades.

Apenas disse que havia pensado muito naquela noite.

Disse que continuava acreditando em algumas das coisas que defendera durante a discussão, mas que isso não justificava a maneira como havia falado.

A Rainha permaneceu em silêncio.

Então segurou sua mão.

Não era uma absolvição imediata.

Era uma abertura.

Um caminho.

O Rei apertou delicadamente os dedos dela.

Naquele instante, percebeu que havia vencido uma batalha muito maior do que qualquer discussão.

Havia vencido o próprio orgulho.

E descobrira que, em Veramor, algumas das maiores vitórias não aconteciam diante de grandes multidões.

Aconteciam quando duas pessoas escolhiam proteger o amor antes de proteger o próprio ego.

Naquela noite, o Rei não deixou de ser Rei.

Tornou-se apenas mais humano.

E, para a Rainha, isso talvez fosse ainda mais precioso.

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