A Noite do Silêncio Tenso – Capítulo 205

Reino de Veramor nova capa

A Noite do Silêncio Tenso

A mesa estava posta como em tantas outras noites. A luz suave das velas desenhava sombras tranquilas nas paredes, e o aroma do jantar se espalhava com delicadeza pelo ambiente. Tudo parecia em ordem. Tudo parecia igual.

Mas não estava.

O Rei sentou-se primeiro, ainda com traços do cansaço no olhar. Seus pensamentos não estavam completamente ali, mesmo que seu corpo ocupasse o lugar de sempre. A Rainha veio em seguida, com a mesma elegância serena, mas com um silêncio que não lhe era habitual.

Serviram-se.

O som dos talheres tocando a porcelana era o que preenchia o espaço entre eles. Não havia conflito declarado, nenhuma palavra dura, nenhum gesto brusco. Apenas a ausência do que antes fluía com naturalidade.

Pequenos incômodos repousavam sobre a mesa, invisíveis, mas presentes.

O Rei pensava no projeto, nas decisões que ainda precisava tomar, nos detalhes que exigiam sua atenção. Ao mesmo tempo, sentia algo diferente no ambiente, algo que não conseguia nomear com precisão, mas que o impedia de se entregar completamente ao momento.

A Rainha percebia cada distração. Cada olhar que não se demorava. Cada resposta curta. Não era indiferença. Ela sabia disso. Mas era distância, e distância, quando não compreendida, pesa.

Nilo caminhou silencioso até a mesa e se acomodou próximo aos pés da Rainha, como se buscasse ancorar aquele momento. Luzia observava do alto de uma prateleira, imóvel, como quem reconhece que certas noites pedem mais escuta do que movimento. Bravus deitou-se um pouco afastado, sem a agitação de costume, captando a mudança no ambiente. Ícaro permaneceu quieto.

A Rainha tentou iniciar uma conversa simples. Perguntou sobre o andamento do projeto. O Rei respondeu, mas de forma breve, funcional, como quem ainda está preso ao raciocínio interno. Não houve continuidade.

O silêncio retornou.

E dessa vez, mais pesado.

Não era desconforto por falta de assunto. Era o acúmulo de coisas não ditas. Sensações não compartilhadas. Percepções guardadas por cuidado, mas que começavam a ocupar espaço demais dentro de cada um.

O Rei levantou os olhos por um instante e encontrou o olhar da Rainha. Havia algo ali. Não era cobrança. Não era tristeza evidente. Era uma pergunta silenciosa.

Ele quase falou.

Mas não encontrou as palavras certas naquele momento.

E ela também não insistiu.

Continuaram o jantar assim, lado a lado, unidos na presença, mas separados por uma camada sutil de distância que não chegava a romper, mas também não permitia o encontro pleno.

Quando terminaram, recolheram a mesa com gestos calmos. Tudo foi feito com respeito, com cuidado, com a mesma harmonia externa de sempre.

Mas algo permanecia.

Naquela noite, o silêncio não trouxe paz.

Trouxe consciência.

Porque nem todo amor enfrenta grandes tempestades.

Às vezes, ele precisa aprender a atravessar noites em que o que pesa não é o conflito…

Mas aquilo que ainda não foi dito.

 

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