A Carta Não Enviada

Reino de Veramor nova capa

A Carta Não Enviada

A chuva voltou a cair sobre Veramor naquela tarde.

Não era uma tempestade. Eram gotas lentas, constantes, que escorriam pelos vitrais do castelo como se o céu também tivesse decidido falar em silêncio.

A Rainha permaneceu sozinha na antiga biblioteca, um dos poucos cômodos que a reforma quase não havia tocado. Ali, o tempo parecia caminhar mais devagar. O perfume dos livros antigos misturava-se ao aroma da madeira envelhecida, criando um refúgio onde o coração podia respirar.

Sobre a mesa repousavam uma folha de papel marfim, uma caneta-tinteiro e uma pequena rosa branca colhida naquela manhã.

Ela sentou-se.

Por alguns minutos, apenas observou a folha vazia.

Havia tanto dentro dela.

Mas transformar sentimentos em palavras exigia uma coragem diferente daquela necessária para enfrentar os dias difíceis.

Respirou fundo.

Molhou a pena na tinta.

E começou a escrever.

Não era uma carta de acusação.

Também não era um pedido de desculpas.

Era apenas a verdade.

Escreveu que sentia saudades do homem que sempre encontrava tempo para caminhar pelos jardins sem olhar o relógio.

Escreveu que compreendia o peso das responsabilidades que agora recaíam sobre ele, mas confessou que, às vezes, tinha medo de perder pequenos pedaços do companheiro que conhecia tão profundamente.

Contou que a reforma do castelo havia despertado nela inseguranças que nem ela própria imaginava possuir.

Disse que envelhecer nunca lhe causara medo.

O que realmente a assustava era a possibilidade de que o tempo mudasse a maneira como se olhavam.

Escreveu que ainda se emocionava quando o via sorrir distraidamente.

Que ainda encontrava paz ao ouvir seus passos atravessando os corredores.

Que ainda sentia o coração acelerar quando suas mãos encontravam as dele.

Confessou que, mesmo depois de tantos anos, continuava apaixonada.

Mas admitiu também que o amor maduro possui novos medos.

Já não teme a distância dos quilômetros.

Teme a distância dos silêncios.

Enquanto a tinta secava lentamente sobre o papel, Nilo entrou na biblioteca.

Sem fazer qualquer ruído, aproximou-se da mesa e saltou para a cadeira ao lado da Rainha.

Observou cada movimento da pena.

Depois apenas fechou os olhos.

Como se dissesse que algumas palavras já estavam sendo compreendidas antes mesmo de serem lidas.

Luzia apareceu logo depois.

Instalou-se no parapeito da janela, contemplando a chuva cair sobre os jardins.

Bravus deitou-se próximo à porta, mantendo sua vigília tranquila, enquanto Ícaro, do corredor, cantava uma melodia tão suave que parecia não querer interromper os pensamentos da Rainha.

A carta crescia.

Cada linha retirava um pequeno peso de seu coração.

Quando terminou, releu tudo com calma.

Havia lágrimas discretas em seus olhos.

Não lágrimas de tristeza.

Mas de sinceridade.

Dobrou cuidadosamente a folha.

Por um instante, pensou em entregá-la ao Rei naquela mesma noite.

Levantou-se.

Caminhou alguns passos.

Parou.

Voltou.

Guardou a carta dentro de um antigo livro de poesias que ambos costumavam ler nos primeiros anos de Veramor.

Não era o momento.

Ainda não.

Ela compreendeu que escrever já havia produzido seu primeiro milagre.

Organizara sua alma.

Nem toda carta nasce para ser enviada.

Algumas existem apenas para que o coração encontre coragem de compreender a si mesmo antes de falar ao outro.

Ao fechar o livro, a Rainha sorriu discretamente.

Pela primeira vez em muitos dias, sentia que as palavras já não pesavam tanto dentro dela.

Do outro lado do castelo, sem saber da existência daquela carta, o Rei levantou os olhos de seu trabalho e, sem motivo aparente, pensou nela.

Sorriu também.

Como se, de alguma forma invisível, o amor tivesse encontrado um novo caminho para aproximar dois corações que jamais deixaram de pertencer um ao outro.

A carta permaneceu escondida entre as páginas do velho livro.

Silenciosa.

Paciente.

Esperando apenas o dia em que deixaria de ser necessária.


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